Monday, January 23, 2017

NASCER

Nascer dói. Não lembramos das dores passadas que estão muito distantes de nós, mas eu tenho consciência de tudo e nascer dói. Corrompe nosso primeiro corpo, primeiro aglomerado de células e rasga nossa pele. Nascer dói. Da escuridão, conhecemos a luz que fere, do útero materno, conhecemos o toque de mãos desconhecidos. Tudo é novo e tudo dói. Minha pobre família não sabe que dói e celebra minha dor, minha primeira experiência entre muitas outras que a existência há de cumprir em meu destino. Minha família celebra minha dor enquanto uma outra família chova e geme a dor de um filho parido sem vida. Este filho está ao meu lado, minha mãe diz logo que nasço que meus olhos contemplam o vazio, mas eu contemplo este outro corpo não nascido que não grita a dor pois não nasceu e não sabe que nascer dói. Somos ciclopes que se encaram e se invejam. Um inveja a vida e a multidão de dores, o outro inveja a calma, a inexistência do sentir. Ali, nos encarando com tanta violência, travamos nossa rivalidade perpétua. Como o detesto! Como cobiço sua condição. As mãos novas me esmagam, nenhuma mão o encosta. Ele é protegido e onipresente em todos os instantes, está sempre ali esquivo, exibindo seu não-sofrer. Paralelo ao meu crescer, aprendemos juntos. A ferida de ralado no joelho, cutucar a casquinha e o arder de sabão nos olhos, ele desconhece e se diverte com a minha dor, descobrindo o mistério e o espanto de existir através de minhas angustiantes experiências. Meus pais não me adoram, estou sempre alheia a tudo, jamais preciso de companhia, pois desconheço o que é estar sozinha. Amarga, não desejo nada, minha única sede a condição dele. Meus pais não me adoram pois não sou como as outras crianças, eu tenho consciência de tudo, todos os sentimentos me habitam como uma estática memória. Tudo que vivi e senti reside em mim e é percebido novamente a todo instante. A cada segundo eu regurgito o desespero de sentir todas as dores e alegrias simultaneamente. Meu silêncio é meu grito. Embaixo da mesa do café da manhã, ouço meus pais falarem sobre minha personalidade apática e meu olhar perdido, que na verdade sempre olha para ele. Irritada e cheia de confissões, sinto vontade de lhes contar todas as verdades, a verdade de que sinto tudo e por tudo sentir, nada expresso em mim. Escutamos as lamentações dos meus pais e, pela primeira vez, eles conversam sobre o menino nascido morto e como têm sorte pelo meu nascer que tanto dói. Menino Heitor. Nos olhamos assustados, pois o menino onipresente e invisível agora possuía nome e isso não nos causava estranheza. Eu já havia a não pronunciar sobre ele, mamãe e papai eram loucos e projetavam sua loucura em mim que, segundo eles, via coisas. A sagacidade de meus múltiplos sentimentos me ensinaram que eu não deveria falar sobre ele e sobre nossa vida lado a lado, pois assim como gêmeos monozigóticos, nós dois coexistimos. Viver não é sem nós. Heitor me detesta, pois eu sinto muito e ele apenas sente o que espontaneamente vem de mim, como sua inveja. Conversamos sobre essa inveja que sentimentos, nossas supostas percepções do universo são equidistantes, não comparativas, como se falássemos em línguas opostas e jamais traduzidas. Assim fora nossa infância. Eu conhecendo tudo e Heitor conhecendo o mundo através de mim. Eu sinto a chuva escorrer em minhas bochechas, sinto o gosto da fruta colhida e sinto o gosto do bicho da fruta, sinto o arder da orelha puxada pela desobediência. Eu sinto e desprezo o sentir. Heitor sente curiosidade em sentir, até as mais absurdas sensações, como a descarga elétrica que me fez cócegas de velocidade abrupta rompendo meu corpo são. Heitor depende de mim durante minha descoberta do mundo e eu me sinto uma experiência humana, um pálido corpo de menina que tudo sente e descobre sempre mais para sentir. Em certo ponto de nosso crescer, percebo um diferente modo de olhar repousado sobre mim, como se quisesse me conhecer de outra maneira agora. Como se quisesse aprender sobre mim e não através de mim. Desconheço essa nova espécie de olhar, me causa estranheza e confusão. Começo a ignorá-lo, não gosto deste novo sentimento de interesse e sinto saudade de quando Heitor me detestava pela inveja. Em prantos choro todas as dores em mim e frito aos céus a incompreensão do fado que carrego e que ninguém me explica! Me explicam tão habilmente que não devo roubar e mentir, por que não me ensinam os motivos de eu enxergar alguém que está morto e por que eu sinto tanto?! Heitor é minha sombra, meu demônio e minha depressão. Agora passo pela descoberta juventude, meu corpo de menina se despir e transformar em corpo moço, o sangue que escorre entre minhas pernas, a dor do útero, as obrigações patriarcais do dever e ser mulher. Não aceito a transição, eu que sinto tanto o tempo inteiro ainda devo dizer sim a tudo? Desobediente, não faço o que me obrigam. Heitor é fascinado pela minha rebeldia, eu imploro para que pare e ele diz que não é capaz, que é o primeiro sentir espontaneamente brotado em si. Experimentando o novo desprezo de viver ao sentir tudo e ainda dever o que não me compete. Por ser mulher moça o mundo me obriga e eu desatino. Fragilizada rogo pragas ao universo que quer me possuir. Heitor e eu conversamos, com seus sentimentos aflorados por mim, se compadece de minha dor e meu sofrer. Querem que eu me cale, que eu não tenha voz, mas como isso seria possível se sinto todas as dores do mundo? Se vive em mim o sofrimento, se há em mim mais do que meu corpo aguenta. Eu não caibo dentro de meu próprio peito. De repente, começo a sentir a urgência do mundo para aliviar minha dor, tenho vontade de viver o desconhecido, como o primeiro beijo áspero e o faço. O faço e descubro a sensação de meus lábios tocarem outros lábios e a aveludes e a calma que envolve uma respiração síncrona. Heitor vê tudo e se desespera. Ao ser denunciada, exposta, humilhada e incompreendida, meus pais decidem me colocar num colégio interno para meninas. Eu odeio existir, Heitor segura minhas mãos, em choro e lamentos percebe minha exaustão de ser. Exausta e incapaz da pronúncia, com olhos distantes, eu começo a me render ao viver. Aguardando a morte pelo cansaço, pelo desgosto, pela dor ao ver um pássaro morto aos seis anos e sofrer ao perceber um coração que não mais pulsa, asas que não mais voam e ali desistir da morte como já a desejava tão cedo, por esta dor também repousar em mim. Sentada em minha carteira, Heitor em minha mesa discutia saídas para este desespero e assim como todas as cores juntas viram o branco, todos os sentimentos em mim me tornaram apática. Não o respondo mais aos estímulos. Entra na sala uma senhora de óculos que nos agride com suas expressões faciais e raivosa grita “o que esse garoto faz aqui?”. Bombardeados pelo susto, Heitor e eu nos olhamos com os mesmos olhos ciclopes arregalados em que nos vimos pela primeira vez. Toda a consciência parte de mim e se projeta como meu segredo revelado e eu compreendo o grande mistério do múltiplo sentir e a dor de não pertencer. A grandiosa, única e violenta experiência de ser mulher. Meu fiel e sempre constante amigo oculto, alguém que igualmente sofre pois não sente, que não está dolorosamente enraizado a tudo e de sentir atemporal. Da minha nítida, intensa, multifacetada e plural experiência do existir feminino. Eu então transpareço, me desfaço de mim. No fragmento de segundo que sucede, eu nasço novamente. Nascer não dói. Eu que não cabia, agora faço parte de tudo. Doce e perpétua, existo em tudo que há em mim.

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